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segunda-feira, 12 de maio de 2014
sexta-feira, 9 de maio de 2014
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Peladas
Armando Nogueira
Esta pracinha sem
aquela pelada virou uma chatice completa: agora, é uma babá que passa,
empurrando, sem afeto, um bebê de carrinho, é um par de velhos que troca
silêncios num banco sem encosto.
E, no entanto, ainda
ontem, isso aqui fervia de menino, de sol, de bola, de sonho: “Eu jogo na
linha! eu sou o Lula!; no gol, eu não jogo, tô com o joelho ralado de ontem;
vou ficar aqui atrás: entrou aqui, já sabe”. Uma gritaria, todo mundo se
escalando, todo mundo querendo tirar o selo da bola, bendito fruto de uma suada
vaquinha.
Oito de cada lado e,
para não confundir, um time fica como está; o outro joga sem camisa.
Já reparei uma coisa:
bola de futebol, seja nova, seja velha, é um ser muito compreensivo que dança
conforme a música: se está no Maracanã, numa decisão de título, ela rola e
quiçá com um ar dramático, mantendo sempre a mesma pose adulta, esteja nos pés
de Gérson ou nas mãos de um gandula.
Em compensação, num
racha de menino ninguém é mais sapeca: ela corre para cá, corre para lá, quica
no meio-fio, para de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se
espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece
um bichinho. Aqui, nessa pelada inocente é que se pode sentir a pureza de uma
bola. Afinal, trata-se de uma bola profissional, uma número cinco, cheia de
carimbos ilustres: “Copa Rio-Oficial”, “FIFA – Especial”. Uma bola assim, toda
de branco, coberta de condecorações por todos os gomos (gomos hexagonais!),
jamais seria barrada em recepção do Itamaraty.
No entanto, aí está
ela, correndo para cima e para baixo, na maior farra do mundo, disputada,
maltratada até, pois, de quando em quando, acertam-lhe um bico, ela sai
zarolha, vendo estrelas, coitadinha.
Racha é assim mesmo:
tem bico, mas tem também sem-pulo de craque como aquele do Tona, que empatou a
pelada e que lava a alma de qualquer bola. Uma pintura.
Nova saída.
Entra na praça
batendo palmas como quem enxota galinha no quintal. É um velho com cara de
guarda-livros que, sem pedir licença, invade o universo infantil de uma pelada
e vai expulsando todo mundo. Num instante, o campo está vazio, o mundo está
vazio. Não deu tempo nem de desfazer as traves feitas de camisas.
O espantalho-gente
pega a bola, viva, ainda, tira do bolso um canivete e dá-lhe a primeira
espetada. No segundo golpe, a bola começa a sangrar. Em cada gomo o coração de
uma criança.
Sobre a crônica
Ivan Ângelo
Uma leitora se refere
aos textos aqui publicados como “reportagens”. Um leitor os chama de “artigos”.
Um estudante fala deles como “contos”. Há os que dizem: “seus comentários”.
Outros os chamam de “críticas”. Para alguns, é “sua coluna”.
Estão errados?
Tecnicamente, sim – são crônicas –, mas... Fernando Sabino, vacilando diante do
campo aberto, escreveu que “crônica é tudo o que o autor chama de crônica”.
A dificuldade é que a
crônica não é um formato, como o soneto, e muitos duvidam que seja um gênero
literário, como o conto, a poesia lírica ou as meditações à maneira de Pascal .
Leitores, indiferentes ao nome da rosa, dão à crônica prestígio, permanência e
força. Mas vem cá: é literatura ou é jornalismo? Se o objetivo do autor é fazer
literatura e ele sabe fazer...
Há crônicas que são
dissertações, como em Machado de Assis; outras são poemas em prosa, como em
Paulo Mendes Campos; outras são pequenos contos, como em Nelson Rodrigues; ou
casos, como os de Fernando Sabino; outras são evocações, como em Drummond e
Rubem Braga; ou memórias e reflexões, como em tantos. A crônica tem a
mobilidade de aparências e de discursos que a poesia tem – e facilidades que a
melhor poesia não se permite.
Está em toda a
imprensa brasileira, de 150 anos para cá. O professor Antonio Candido observa:
“Até se poderia dizer que sob vários aspectos é um gênero brasileiro, pela
naturalidade com que se aclimatou aqui e pela originalidade com que aqui se
desenvolveu”.
Alexandre Eulálio, um
sábio, explicou essa origem estrangeira: “É nosso familiar essay , possui
tradição de primeira ordem, cultivada desde o amanhecer do periodismo nacional
pelos maiores poetas e prosistas da época”. Veio, pois, de um tipo de texto
comum na imprensa inglesa do século XIX, afável, pessoal, sem-cerimônia e, no
entanto, pertinente.
Por que deu certo no
Brasil? Mistérios do leitor. Talvez por ser a obra curta e o clima, quente.
A crônica é frágil e
íntima, uma relação pessoal. Como se fosse escrita para um leitor, como se só
com ele o narrador pudesse se expor tanto. Conversam sobre o momento,
cúmplices: nós vimos isto, não é, leitor?, vivemos isto, não é?, sentimos isto,
não é? O narrador da crônica procura sensibilidades irmãs.
Se é tão antiga e
íntima, por que muitos leitores não aprenderam a chamá-la pelo nome? É que ela
tem muitas máscaras. Recorro a Eça de Queirós, mestre do estilo antigo. Ela
“não tem a voz grossa da política, nem a voz indolente do poeta, nem a voz
doutoral do crítico; tem uma pequena voz serena, leve e clara, com que conta
aos seus amigos tudo o que andou ouvindo, perguntando, esmiuçando”.
A crônica mudou, tudo
muda. Como a própria sociedade que ela observa com olhos atentos. Não é preciso
comparar grandezas, botar Rubem Braga diante de Machado de Assis. É mais exato
apreciá-la desdobrando-se no tempo, como fez Antonio Candido em “A vida ao rés
do chão”: “Creio que a fórmula moderna, na qual entram um fato miúdo e um toque
humorístico, com o seu quantum satis de poesia, representa o amadurecimento e o
encontro mais puro da crônica consigo mesma”. Ainda ele: “Em lugar de oferecer
um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o
miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade
insuspeitadas”.
Elementos que não
funcionam na crônica: grandiloquência, sectarismo, enrolação, arrogância,
prolixidade. Elementos que funcionam: humor, intimidade, lirismo, surpresa,
estilo, elegância, solidariedade. Cronista mesmo não “se acha”. As crônicas de
Rubem Braga foram vistas pelo sagaz professor Davi Arrigucci como “forma
complexa e única de uma relação do Eu com o mundo”. Muito bem. Mas Rubem Braga
não se achava o tal. Respondeu assim a um jornalista que lhe havia perguntado o
que é crônica:
— Se não é aguda, é
crônica.
A última crônica
Fernando Sabino
A caminho de casa,
entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade
estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de
estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do
irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária
algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais
digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição
do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança
ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do
essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto
o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último
poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de
mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim
um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao
longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos
e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três
anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também
à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de
curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a
instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se
preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los.
O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o
garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de
bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa,
como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do
homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os
lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o
garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do
bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas
uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida
na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom
deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e
filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de
plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa
de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho.
Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas
brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E
enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a
um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força,
apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada,
cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “Parabéns pra você,
parabéns pra você...”. Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na
bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a
comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no
cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos
pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da
celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele
se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando
o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria
minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
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