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segunda-feira, 5 de maio de 2014
Bar doce bar
Aluna: Luana Jaques Santos
O dia é incansável e não termina. O sol ainda resiste e tinge de vermelho os olhos de
quem ficou no boteco o dia todo. O bar está cheio de homens, a maioria maduros ou ape-
nas envelhecidos. Uma criança passa, compra duas balinhas e vai embora. Mulheres só
passam o olho lá dentro e quase nunca entram. Para os bêbados de plantão tudo é normal
e sempre igual.
Não sei se são notados. Penso que só por alguns. Há aqueles que os cumprimentam.
As pessoas se acostumam a vê-los sempre ali, cartas marcadas, vidas marcadas. São os
ex. Ex-maridos, ex-alunos, ex-trabalhadores. Agora são exilados e se tornaram excluídos.
No passeio está o Tesourão, o cachorro que fez da rua sua moradia. O bêbado, o cão,
rumos perdidos e solidão.
Nossos bares... Neles os amigos se encontram, jogam conversa fora. É onde uma mãe
passa e compra um lanche para o filho. Onde o retireiro toma um café fresco e saboreia um
pastel quentinho.
Na praça histórica da pequena cidade os bancos estão ocupados. São funcionários
públicos, lavadores, balconistas. São comerciantes, artesãos, pedreiros, motoristas. O dono
da Sinuca, o bar mais antigo, enquanto vende, vai instruindo os fregueses a desenrolar pa-
péis: INSS, inventários, exames médicos. Às vezes ganha um frango em troca. Outras, um
muito obrigado. E sempre amizades. Se chega um forasteiro, dá dicas dos pontos turísticos.
É um guia no balcão.
No bar do Dirceu, os aperitivos acompanham os desabafos dos bêbados. As rodas de
viola dão o tom para o sol se esconder de mansinho e dar lugar à lua tímida. Especial,
especiaria, som saboroso para o fim do dia.No outro bar, o balconista é ouvido por toda a praça. Daniel, voz estrondosa. Deve ser
por isso que eu também falo alto, herança dele, meu pai. Aquele jogo clássico reúne ho-
mens que cercam o balcão. Estão ansiosos demais para se sentarem. Tudo é discutido,
desde o gramado sintético até o gol irregular. As cadeiras esperam pacientes para o
carteado. Aconchegante, relaxante cantinho.
Cada boteco tem sua personalidade, seu carisma. Mas em dia de procissão todos eles
cerram suas portas pedindo bênção ao santo. Com respeito, as pessoas enfeitam as janelas de
suas casas e a banda de música embala a legião de fiéis. É bonito ver como o povo participa.
Nos bares o espaço é democrático. É onde as ideias de todo mundo são apresentadas
e jogadas a todos os ouvidos. Em volta de uma mesa, todo assunto se resolve: os problemas
do mundo e tudo o mais. É a filosofia do botequim. Estamos falando de uma tribuna
popular. Quer debater? Pode ir lá. É política, futebol, bipolaridades. Ali é prestado serviço
de comunicação: à boca pequena todos ficam por dentro das novidades. Quem chegou,
quem partiu, morreu, brigou ou separou. Também eu deixo meu rastro marcado e vou a um
desses bares, apanho o meu Folha das Vertentes e, a passos largos, volto para casa para ler
a coluna do cronista, este “poeta do cotidiano”.
O dia se vai assim e as portas só fecham depois de toda a cidade, tão calma, ter ador-
mecido. E a rotina faz dali a segunda casa de muitos homens. Bar doce bar. Ele exerce papel
fundamental na cidadezinha. Nele todos se tornam iguais e se unem para poder suportar a
rotina do ilusório.
Professora: Maria Magali Vale Rodrigue
Aluna: Luana Jaques Santos
O dia é incansável e não termina. O sol ainda resiste e tinge de vermelho os olhos de
quem ficou no boteco o dia todo. O bar está cheio de homens, a maioria maduros ou ape-
nas envelhecidos. Uma criança passa, compra duas balinhas e vai embora. Mulheres só
passam o olho lá dentro e quase nunca entram. Para os bêbados de plantão tudo é normal
e sempre igual.
Não sei se são notados. Penso que só por alguns. Há aqueles que os cumprimentam.
As pessoas se acostumam a vê-los sempre ali, cartas marcadas, vidas marcadas. São os
ex. Ex-maridos, ex-alunos, ex-trabalhadores. Agora são exilados e se tornaram excluídos.
No passeio está o Tesourão, o cachorro que fez da rua sua moradia. O bêbado, o cão,
rumos perdidos e solidão.
Nossos bares... Neles os amigos se encontram, jogam conversa fora. É onde uma mãe
passa e compra um lanche para o filho. Onde o retireiro toma um café fresco e saboreia um
pastel quentinho.
Na praça histórica da pequena cidade os bancos estão ocupados. São funcionários
públicos, lavadores, balconistas. São comerciantes, artesãos, pedreiros, motoristas. O dono
da Sinuca, o bar mais antigo, enquanto vende, vai instruindo os fregueses a desenrolar pa-
péis: INSS, inventários, exames médicos. Às vezes ganha um frango em troca. Outras, um
muito obrigado. E sempre amizades. Se chega um forasteiro, dá dicas dos pontos turísticos.
É um guia no balcão.
No bar do Dirceu, os aperitivos acompanham os desabafos dos bêbados. As rodas de
viola dão o tom para o sol se esconder de mansinho e dar lugar à lua tímida. Especial,
especiaria, som saboroso para o fim do dia.No outro bar, o balconista é ouvido por toda a praça. Daniel, voz estrondosa. Deve ser
por isso que eu também falo alto, herança dele, meu pai. Aquele jogo clássico reúne ho-
mens que cercam o balcão. Estão ansiosos demais para se sentarem. Tudo é discutido,
desde o gramado sintético até o gol irregular. As cadeiras esperam pacientes para o
carteado. Aconchegante, relaxante cantinho.
Cada boteco tem sua personalidade, seu carisma. Mas em dia de procissão todos eles
cerram suas portas pedindo bênção ao santo. Com respeito, as pessoas enfeitam as janelas de
suas casas e a banda de música embala a legião de fiéis. É bonito ver como o povo participa.
Nos bares o espaço é democrático. É onde as ideias de todo mundo são apresentadas
e jogadas a todos os ouvidos. Em volta de uma mesa, todo assunto se resolve: os problemas
do mundo e tudo o mais. É a filosofia do botequim. Estamos falando de uma tribuna
popular. Quer debater? Pode ir lá. É política, futebol, bipolaridades. Ali é prestado serviço
de comunicação: à boca pequena todos ficam por dentro das novidades. Quem chegou,
quem partiu, morreu, brigou ou separou. Também eu deixo meu rastro marcado e vou a um
desses bares, apanho o meu Folha das Vertentes e, a passos largos, volto para casa para ler
a coluna do cronista, este “poeta do cotidiano”.
O dia se vai assim e as portas só fecham depois de toda a cidade, tão calma, ter ador-
mecido. E a rotina faz dali a segunda casa de muitos homens. Bar doce bar. Ele exerce papel
fundamental na cidadezinha. Nele todos se tornam iguais e se unem para poder suportar a
rotina do ilusório.
Professora: Maria Magali Vale Rodrigue
A Pipa, o Bispo e o Azul
Aluno: Ericles da Silva Santos
Ouvi barulho e vozes crescentes, um zum-zum-zum empesteava o assentamento onde
moro. Quanto mais pedalava, mais me embrenhava num corre-corre alucinado: meninos,
mulheres, todos corriam para a frente do barracão. Que enxame é esse? Que cabrunco está
acontecendo?
Era o Pipa! De novo o Pipa? Dessa vez ele tinha ido longe demais. Estava no alto do pau
de sebo, quase pendurado no topo. Aquele mastro tinha sido colocado ali dois dias antes.
A festa ia acontecer no final de semana: algodão-doce, corrida de ovo e pau de sebo.
“Desce daí, seu doido!” Uns jogavam areia, pedras...
O Pipa era mestre na arte de fazer papagaio. Quando não estava na roça ajudando os
pais, estava viajando nas asas das pipas. Ele se isolava. Dizia que gostava da solidão.
Solidão a três: ele, a pipa e a imaginação... Logo eram seis e depois eram muitos...
Era diferente. Era mesmo feio. Chamava-o de louco. Particularmente, ele tinha algo que
me fascinava. Vez em quando soltava um sorriso azul.
O artista de caçar passarinho e criar pipas estudava comigo, e na mesma sala. Outro dia,
na escola, o professor falou do filho mais ilustre da nossa cidade: Arthur Bispo do Rosário.
Um misto de desapego e curiosidade tomou conta da turma. Pipa foi um dos que deram uma
chance ao professor. Ouviu tudo atentamente. O professor falou da importância de a gente
incorporar o Bispo como elemento nosso. Ele lhe disse que somos conterrâneos do homem
e desconhecíamos sua obra, o seu valor, a sua história. “As pessoas passam pela estátua do
Bispo, na entrada da cidade, e falam mal, e como falam mal: louco, preto, feio e pobre”.
Então ele nos pediu que acrescentássemos a palavra “gênio”.
— Gênio?
Aí o Pipa gritou: “Louco, preto, feio, pobre e gênio!” E riu! Riu tanto que tumultuou a
aula. Subiu na carteira e foi só presepada, muganga. Imitava o Bispo do Rosário, com altas
doses de esquizofrenia.
“Quer levar um sopapo, menino? Está ficando mais besta ainda. Deve ser a escola!
Já disse que Jamerson nunca foi bom da cabeça. E está piorando!”, gritava o pai, meio
desesperado.
“Não ligo, não! Sei que não sou gênio, mas sinto dentro de mim que sou diferente, que
vejo muito diferente dos meus irmãos. Eles não me perdoam por isso. Só minha mãe. Ela é
a minha Nossa Senhora, sempre generosa.”
“Desce daí, meu filho! Você vai acabar matando sua mãe! Gente, ajude aí! Meu Pipa é
sonâmbulo. Ele está é dormindo.”
Quando me viu no meio da multidão, fez cara de súplica. Não me fiz de rogado! Joguei
a bicicleta e desbravei aquele pau de sebo. Não tive dificuldade. Aquele mastro já me co-
nhecia. Agarrei o meu amigo pela cintura, a multidão uivou, berrou, decepcionada.
Parecia um anjo de olhos cerrados. Tremia os lábios, soltava gaitados. Na mão esquerda
uma pipa azul. Resmungou. Abraçou-me. “Quem é que está aí? Qual é a cor da minha aura?”
Aluno: Ericles da Silva Santos
Ouvi barulho e vozes crescentes, um zum-zum-zum empesteava o assentamento onde
moro. Quanto mais pedalava, mais me embrenhava num corre-corre alucinado: meninos,
mulheres, todos corriam para a frente do barracão. Que enxame é esse? Que cabrunco está
acontecendo?
Era o Pipa! De novo o Pipa? Dessa vez ele tinha ido longe demais. Estava no alto do pau
de sebo, quase pendurado no topo. Aquele mastro tinha sido colocado ali dois dias antes.
A festa ia acontecer no final de semana: algodão-doce, corrida de ovo e pau de sebo.
“Desce daí, seu doido!” Uns jogavam areia, pedras...
O Pipa era mestre na arte de fazer papagaio. Quando não estava na roça ajudando os
pais, estava viajando nas asas das pipas. Ele se isolava. Dizia que gostava da solidão.
Solidão a três: ele, a pipa e a imaginação... Logo eram seis e depois eram muitos...
Era diferente. Era mesmo feio. Chamava-o de louco. Particularmente, ele tinha algo que
me fascinava. Vez em quando soltava um sorriso azul.
O artista de caçar passarinho e criar pipas estudava comigo, e na mesma sala. Outro dia,
na escola, o professor falou do filho mais ilustre da nossa cidade: Arthur Bispo do Rosário.
Um misto de desapego e curiosidade tomou conta da turma. Pipa foi um dos que deram uma
chance ao professor. Ouviu tudo atentamente. O professor falou da importância de a gente
incorporar o Bispo como elemento nosso. Ele lhe disse que somos conterrâneos do homem
e desconhecíamos sua obra, o seu valor, a sua história. “As pessoas passam pela estátua do
Bispo, na entrada da cidade, e falam mal, e como falam mal: louco, preto, feio e pobre”.
Então ele nos pediu que acrescentássemos a palavra “gênio”.
— Gênio?
Aí o Pipa gritou: “Louco, preto, feio, pobre e gênio!” E riu! Riu tanto que tumultuou a
aula. Subiu na carteira e foi só presepada, muganga. Imitava o Bispo do Rosário, com altas
doses de esquizofrenia.
“Quer levar um sopapo, menino? Está ficando mais besta ainda. Deve ser a escola!
Já disse que Jamerson nunca foi bom da cabeça. E está piorando!”, gritava o pai, meio
desesperado.
“Não ligo, não! Sei que não sou gênio, mas sinto dentro de mim que sou diferente, que
vejo muito diferente dos meus irmãos. Eles não me perdoam por isso. Só minha mãe. Ela é
a minha Nossa Senhora, sempre generosa.”
“Desce daí, meu filho! Você vai acabar matando sua mãe! Gente, ajude aí! Meu Pipa é
sonâmbulo. Ele está é dormindo.”
Quando me viu no meio da multidão, fez cara de súplica. Não me fiz de rogado! Joguei
a bicicleta e desbravei aquele pau de sebo. Não tive dificuldade. Aquele mastro já me co-
nhecia. Agarrei o meu amigo pela cintura, a multidão uivou, berrou, decepcionada.
Parecia um anjo de olhos cerrados. Tremia os lábios, soltava gaitados. Na mão esquerda
uma pipa azul. Resmungou. Abraçou-me. “Quem é que está aí? Qual é a cor da minha aura?”
A cobrança descabelada
Aluna: Maria Jéssica Carneiro
Muitas vezes situações simples como uma cobrança podem tornar-se foco de conflitos
sérios e desconfortáveis. O fato aconteceu no bairro de Outra Banda, no município do Aca-
raú, interior do Ceará. O bairro tem esse nome porque havia um riacho, há muito tempo
atrás, que cortava o centro da cidade de um povoado. Toda vez que alguém ia atravessar o
riacho dizia que queria ir para a Outra Banda, daí surgiu o bairro que se desenvolveu às
margens do rio Acaraú e destacou-se pelas indústrias de pescados. Atualmente é um dos
bairros mais populosos da cidade.
E, com tanta gente residindo por ali, não poderia deixar de acontecer alguns espetácu-
los de vez em quando. Certo dia, por volta das sete da manhã, voltando da mercearia per-
tinho da minha casa, defrontei-me com uma mulher de face visivelmente perturbada que
caminhava de um lado para outro à espera de alguém. De súbito ela avistou quem procura-
va. Era a vizinha da frente. Imediatamente, dirigiu-se a ela e disse:
— Pague o que me deve. Comprou tem que pagar.
— Não tenho o seu dinheiro agora! Vá embora! – respondeu a vizinha devedora.
Então, sem muita conversa, a mulher foi embora, mas avisou-a com os olhos cheios de
raiva de que voltaria para pegar o que era seu e não esperaria mais nenhum dia.
Presenciei a cena, intrigada, mas não dei muita importância. Passou e acreditei que
tudo teria acabado, porém, por volta do meio-dia, saboreando um gostoso camurupim,
peixe típico dessa região praiana, quase me engasguei com uma espinha, tamanho foi o
susto que tomei quando ouvi um grito, e outro e mais outro. Estranhei, visto que não era
comum, até então, ouvirem-se gritos na rua, ainda mais naquele horário. Fui até a porta e
um tumulto que se formara na rua aguçou a minha curiosidade. Saí e cheguei mais perto
para verificar o que ocorria. Eram as duas mulheres, cobradora e devedora, que discutiam
147
com ferocidade. Aos poucos, as pessoas saíam de suas casas para ver o que estava aconte-
cendo. As palavras que pronunciavam eram cada vez mais fortes e pesadas e ambas pouco
se importavam com as crianças que ali estavam. Na realidade, elas só queriam acertar as
suas contas. Como já era de esperar, as duas engalfinharam-se no meio da rua. Uma puxava
o cabelo da outra com tanta selvageria que nem dava mais para perceber quem era quem.
A multidão que se formara ao redor das duas apreciava atônita e imóvel aquele espetáculo
de horror. Pensei comigo que Outra Banda já não era a mesma. Onde ficou a política de boa
vizinhança? O público olhava, mas não fazia nada.
Por fim, depois de muito cabelo arrancado, a confusão acabou. Tudo em vão! A cobra-
dora não recebeu o seu dinheiro e saiu do local com o orgulho ferido. A devedora, agora
com fama de má pagadora, foi-se com machucados graves em sua dignidade.
O caro leitor deve ter tido a impressão de que Outra Banda é um bairro um tanto
quanto agitado. Entretanto, perceba que cobranças acontecem diariamente e em todos
os lugares. O diferencial está na forma como ela é feita. Neste caso, a cobradora pouco
paciente e a devedora inadimplente criaram um cenário conflitante que modificou o ambien-
te de Outra Banda. Espero que não aconteçam outros fatos assim novamente, mas, só para
garantir os meus cabelos, peço-lhes licença para ir à mercearia pagar uma conta antiga.
Aluna: Maria Jéssica Carneiro
Muitas vezes situações simples como uma cobrança podem tornar-se foco de conflitos
sérios e desconfortáveis. O fato aconteceu no bairro de Outra Banda, no município do Aca-
raú, interior do Ceará. O bairro tem esse nome porque havia um riacho, há muito tempo
atrás, que cortava o centro da cidade de um povoado. Toda vez que alguém ia atravessar o
riacho dizia que queria ir para a Outra Banda, daí surgiu o bairro que se desenvolveu às
margens do rio Acaraú e destacou-se pelas indústrias de pescados. Atualmente é um dos
bairros mais populosos da cidade.
E, com tanta gente residindo por ali, não poderia deixar de acontecer alguns espetácu-
los de vez em quando. Certo dia, por volta das sete da manhã, voltando da mercearia per-
tinho da minha casa, defrontei-me com uma mulher de face visivelmente perturbada que
caminhava de um lado para outro à espera de alguém. De súbito ela avistou quem procura-
va. Era a vizinha da frente. Imediatamente, dirigiu-se a ela e disse:
— Pague o que me deve. Comprou tem que pagar.
— Não tenho o seu dinheiro agora! Vá embora! – respondeu a vizinha devedora.
Então, sem muita conversa, a mulher foi embora, mas avisou-a com os olhos cheios de
raiva de que voltaria para pegar o que era seu e não esperaria mais nenhum dia.
Presenciei a cena, intrigada, mas não dei muita importância. Passou e acreditei que
tudo teria acabado, porém, por volta do meio-dia, saboreando um gostoso camurupim,
peixe típico dessa região praiana, quase me engasguei com uma espinha, tamanho foi o
susto que tomei quando ouvi um grito, e outro e mais outro. Estranhei, visto que não era
comum, até então, ouvirem-se gritos na rua, ainda mais naquele horário. Fui até a porta e
um tumulto que se formara na rua aguçou a minha curiosidade. Saí e cheguei mais perto
para verificar o que ocorria. Eram as duas mulheres, cobradora e devedora, que discutiam
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com ferocidade. Aos poucos, as pessoas saíam de suas casas para ver o que estava aconte-
cendo. As palavras que pronunciavam eram cada vez mais fortes e pesadas e ambas pouco
se importavam com as crianças que ali estavam. Na realidade, elas só queriam acertar as
suas contas. Como já era de esperar, as duas engalfinharam-se no meio da rua. Uma puxava
o cabelo da outra com tanta selvageria que nem dava mais para perceber quem era quem.
A multidão que se formara ao redor das duas apreciava atônita e imóvel aquele espetáculo
de horror. Pensei comigo que Outra Banda já não era a mesma. Onde ficou a política de boa
vizinhança? O público olhava, mas não fazia nada.
Por fim, depois de muito cabelo arrancado, a confusão acabou. Tudo em vão! A cobra-
dora não recebeu o seu dinheiro e saiu do local com o orgulho ferido. A devedora, agora
com fama de má pagadora, foi-se com machucados graves em sua dignidade.
O caro leitor deve ter tido a impressão de que Outra Banda é um bairro um tanto
quanto agitado. Entretanto, perceba que cobranças acontecem diariamente e em todos
os lugares. O diferencial está na forma como ela é feita. Neste caso, a cobradora pouco
paciente e a devedora inadimplente criaram um cenário conflitante que modificou o ambien-
te de Outra Banda. Espero que não aconteçam outros fatos assim novamente, mas, só para
garantir os meus cabelos, peço-lhes licença para ir à mercearia pagar uma conta antiga.
Até na igreja, Evaristo?
Aluno: Carlos Eduardo Silva
Ao lado de castanheiras, latidos de cães, choros de crianças, gritos de vendedores ambu-
lantes... e nas casas o forte cheiro de café passado na hora anuncia o despertar de mais um
dia na Vila Taquaril. Com toda a disposição, Evaristo se levanta animado, pois era um dia
muito importante para seu time: jogaria pela primeira vez num amistoso.
Evaristo era a pessoa mais conhecida da Vila, morava no melhor ponto: a Praça Alegria.
Por ser uma pessoa muito influente na Vila, tinha como dever participar de todos os eventos
que lá aconteciam.
Como fã nº -1 do seu time, o Tabajara, Evaristo era um especialista na arte do futebol,
sempre fora convidado para ajudar nos treinos dos jogadores mirins, nas manhãs de domin-
go. Enquanto treinava os meninos, Evaristo escutou o sino da igreja dando três badaladas.
Diante dessa situação Evaristo ficou muito aflito, andava de um lado para outro, escu-
tando o anúncio que atormentava sua cabeça.
— Atenção! Hoje haverá missa especial para os moradores às 18 horas. Contamos com
a presença de todos!
“E agora? O que fazer? O jogo está marcado para o mesmo horário da missa!”, pensou ele.
Religioso como ele só e fanático como ele era, não poderia deixar de participar dos dois
compromissos. Assim ele teve uma grande ideia: levaria seu radinho de pilhas à igreja, sen-
taria no último banco e usaria uma jaqueta com capuz onde colocaria seu radinho.
A partir desse momento, a ansiedade contagiava Evaristo, que a todo momento olhava
o relógio na expectativa da hora do jogo.
145
E as horas se foram... a noite apareceu com uma lua radiante, digna de uma missa com
tom bem especial: ação de graças para os devotos e o pedido especial de Evaristo, a grande
vitória do timão Tabajara.
Apesar dos olhares desconfiados das pessoas presentes à missa, Evaristo não se inco-
modou e colocou o seu plano em ação: assentou-se no último banco e ligou o radinho, o
jogo estava começando...
À medida que o jogo esquentava as expressões faciais dele mudavam o tempo todo, não
sabia se prestava atenção no padre Donizete ou no narrador do jogo, Salomão.
Tabajara estava sofrendo pressão do time adversário, o Flamengo. Seu time começou a
contra-atacar, suas mãos ficaram frias e suavam desesperadamente. O atacante Peladinha
estava perto do gol... e ao longe o padre se aproximava de Evaristo, notando a angústia no
rosto dele. Quando o padre ia dizer a primeira palavra, surgiu um grito forte e aliviado:
— GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL!
Todos olharam para trás e o padre Donizete perguntou:
— O que é isso, meu filho?
— GOOOL! GOOOL! – exclamou Evaristo.
— Você não pode gritar em uma igreja, senhor Evaristo!!
— Gol do Peladinha, do meu timão, o Tabajara!
— Do Tabajara? O meu Tabajara?
— Sim! O NOSSO Tabajara!
Então, os dois disseram ao mesmo tempo:
— GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL!
Enquanto os devotos da igreja discutiam o caso, o padre e o Evaristo pegaram seus
radinhos e saíram da igreja festejando a vitória do seu time.
Professora: Leda Maria Avila Silva
Aluno: Carlos Eduardo Silva
Ao lado de castanheiras, latidos de cães, choros de crianças, gritos de vendedores ambu-
lantes... e nas casas o forte cheiro de café passado na hora anuncia o despertar de mais um
dia na Vila Taquaril. Com toda a disposição, Evaristo se levanta animado, pois era um dia
muito importante para seu time: jogaria pela primeira vez num amistoso.
Evaristo era a pessoa mais conhecida da Vila, morava no melhor ponto: a Praça Alegria.
Por ser uma pessoa muito influente na Vila, tinha como dever participar de todos os eventos
que lá aconteciam.
Como fã nº -1 do seu time, o Tabajara, Evaristo era um especialista na arte do futebol,
sempre fora convidado para ajudar nos treinos dos jogadores mirins, nas manhãs de domin-
go. Enquanto treinava os meninos, Evaristo escutou o sino da igreja dando três badaladas.
Diante dessa situação Evaristo ficou muito aflito, andava de um lado para outro, escu-
tando o anúncio que atormentava sua cabeça.
— Atenção! Hoje haverá missa especial para os moradores às 18 horas. Contamos com
a presença de todos!
“E agora? O que fazer? O jogo está marcado para o mesmo horário da missa!”, pensou ele.
Religioso como ele só e fanático como ele era, não poderia deixar de participar dos dois
compromissos. Assim ele teve uma grande ideia: levaria seu radinho de pilhas à igreja, sen-
taria no último banco e usaria uma jaqueta com capuz onde colocaria seu radinho.
A partir desse momento, a ansiedade contagiava Evaristo, que a todo momento olhava
o relógio na expectativa da hora do jogo.
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E as horas se foram... a noite apareceu com uma lua radiante, digna de uma missa com
tom bem especial: ação de graças para os devotos e o pedido especial de Evaristo, a grande
vitória do timão Tabajara.
Apesar dos olhares desconfiados das pessoas presentes à missa, Evaristo não se inco-
modou e colocou o seu plano em ação: assentou-se no último banco e ligou o radinho, o
jogo estava começando...
À medida que o jogo esquentava as expressões faciais dele mudavam o tempo todo, não
sabia se prestava atenção no padre Donizete ou no narrador do jogo, Salomão.
Tabajara estava sofrendo pressão do time adversário, o Flamengo. Seu time começou a
contra-atacar, suas mãos ficaram frias e suavam desesperadamente. O atacante Peladinha
estava perto do gol... e ao longe o padre se aproximava de Evaristo, notando a angústia no
rosto dele. Quando o padre ia dizer a primeira palavra, surgiu um grito forte e aliviado:
— GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL!
Todos olharam para trás e o padre Donizete perguntou:
— O que é isso, meu filho?
— GOOOL! GOOOL! – exclamou Evaristo.
— Você não pode gritar em uma igreja, senhor Evaristo!!
— Gol do Peladinha, do meu timão, o Tabajara!
— Do Tabajara? O meu Tabajara?
— Sim! O NOSSO Tabajara!
Então, os dois disseram ao mesmo tempo:
— GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL!
Enquanto os devotos da igreja discutiam o caso, o padre e o Evaristo pegaram seus
radinhos e saíram da igreja festejando a vitória do seu time.
Professora: Leda Maria Avila Silva
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